Juiz da “Lava Jato italiana” critica Moro por cargo no governo Bolsonaro

UOL

Colaboração de Lucas Ferraz, UOL

Gherardo Colombo, 72, um dos magistrados que conduziu a histórica operação “Mani Pulite” (Mãos Limpas, em português) nos anos 1990 na Itália, tem ressalvas sobre a entrada do seu análogo brasileiro, o juiz Sergio Moro, no governo Bolsonaro. Não pelo fato em si, mas pelo timing.




“Deve haver um tempo entre a saída da magistratura e o ingresso na política”, disse o magistrado italiano ao UOL.

Há 12 anos fora da magistratura, Colombo integrou um grupo de oito magistrados da Procuradoria de Milão que conduziu uma investigação que revolucionou o combate à corrupção no país e tornou-se exemplo em várias partes do mundo –incluindo o Brasil.



Um dos efeitos imediatos da operação foi a descrença com os políticos “de sempre” e a eleição, em 1994, de um empresário para primeiro-ministro: Silvio Berlusconi, mais tarde envolvido em diversos escândalos.]

Deixei a magistratura porque esse sistema capilar e difuso, como é a corrupção na Itália, não pode ser enfrentado com processo penal. Tanto que a corrupção continua, apesar de tudo o que fez a Operação Mãos Limpas”, diz Colombo.

Em uma trajetória semelhante à de Moro no Brasil, um dos colegas de Colombo, Antonio Di Pietro, virou celebridade na Itália e trocou a magistratura pela política. “Mas ele esperou um ano e meio. Primeiro, deixou a atividade de magistrado, depois entrou na política”, destaca Colombo.

Além da nomeação, Di Pietro criou um partido, se elegeu para o Parlamento, mas a carreira não decolou; hoje ele é advogado.

No caso de Colombo, o combate à corrupção há 11 anos se dá de outra maneira. Ele trabalha com crianças e jovens. “A educação é o único caminho para mudar essa cultura”, afirma.

A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

UOL: Como recebeu a notícia de que Sergio Moro aceitou o convite para ser um superministro de Jair Bolsonaro?

Gherardo Colombo: Um juiz, se quiser, pode entrar na política, mas seguindo algumas regras. Independente dessas regras estarem escritas ou não.

Primeiro, seria muito oportuno que a escolha seja sem volta. Alguém que decide fazer política não pode mais ser magistrado. Segundo, deve haver um tempo entre a saída da magistratura e o ingresso na política. Terceiro, esse tempo deve ser bastante substancial, longo, principalmente para aqueles que ficaram famosos por causa de suas atividades como juiz.

Portanto, se aplicamos essas regras à história de Sergio Moro, ele deveria pelo menos ter esperado antes de entrar na política. Ele deveria parar de ser magistrado e esperar um pouco.

As coisas se complicam um pouco porque, se eu li bem, foram unificadas duas funções, Justiça e Segurança Pública. Vendo da Itália, porque eu avalio segundo a cultura jurídica italiana, há um problema muito forte.

Qual?

O ministério unido seria como, na Itália, se unificasse o Ministério do Interior e o da Justiça, que têm funções diversas e que podem ser conflitantes em alguma medida. Às vezes acontece que, pela segurança, se cometa ações que possam resultar em um processo penal. Na Itália, o Judiciário é independente do governo e, portanto, também do Ministério da Justiça, que pode, no entanto, abrir uma ação disciplinar contra aqueles que conduzem uma investigação, é aquele que fornece os meios aos magistrados. Se ele é também o ministro da segurança, todas as vezes que segurança e jurisdição parecem entrar em conflito, as coisas ficam complicadas.

Sergio Moto condenou e prendeu Lula, o que tornou o ex-presidente inelegível. Ele liderava as pesquisas, e sem sua candidatura, Bolsonaro venceu a eleição. O que pensa a respeito?

Às vezes se pode perder a imagem de independência que deve haver um juiz, também pelo comportamento sucessivo aoexercício da atividade na magistratura. Primeiro um é o juiz, e depois, quando termina de fazer esse papel, se torna parte de um sistema no qual influiu objetivamente.




Me pergunto se, ao se colocar em uma matéria eleitoralmente sensível e sem nenhum intervalo, se tornando o ministro da força que venceu a eleição, as pessoas não venham a pensar que talvez ele não seja tão independente nem mesmo tenha sido antes, quando era juiz.

Leia a excelente reportagem no UOL

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