Políticos alemães pedem sanções contra o Brasil por queimadas na Amazônia

Deustche Welle

Verdes e liberais pedem que Berlim rejeite acordo com Mercosul. Legenda de centro-direita chama Bolsonaro de “déspota perigoso” e querem barreiras contra carne e soja, mas governo Merkel hesita apoiar rompimento.

As queimadas na Amazônia levaram dois dos principais partidos de oposição na Alemanha a pedirem que Berlim imponha sanções contra o governo brasileiro e rejeite o acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul. Reivindicações vêm tanto de parlamentares liberais de centro-direita como de ambientalistas.



“A Alemanha e a Europa não podem assistir indiferentes. Têm que parar o acordo com o Mercosul para aumentar, dessa forma, a pressão sobre o Brasil”, disse nesta sexta-feira (23/08) à imprensa alemã o co-presidente do Partido Verde, Robert Habeck. “O acordo só incentiva ainda mais a espiral de destruição da Amazônia. Por isso, instamos o governo a não assinar o novo acordo comercial com o Brasil.”

“No Brasil, está ocorrendo uma catástrofe mundial. O que está em jogo é o futuro da humanidade”, complementou o político, cujo partido aparece tecnicamente empatado com a CDU, a legenda da chanceler federal Angela Merkel, em pesquisas de opinião para as próximas eleições parlamentares e tem chances de conquistar a liderança do próximo governo..




A reivindicação é corroborada pelo líder da bancada parlamentar do Partido Verde Anton Hofreiter. “A chanceler alemã tem que tomar providências para assegurar que não venha a ser fechado o acordo de livre comércio com o Mercosul, que a UE quer fechar com o Brasil, entre outros, e que acelerará ainda mais o enorme desmatamento da Amazônia”, afirmou, em comunicado divulgado nesta quinta-feira.

Já o especialista em política de desenvolvimento do Partido Liberal-Democrático (FDP), Christoph Hoffmann, pede que a Alemanha não só tome providências na área de comércio, como também que congele toda a verba de ajuda ao desenvolvimento dedicada ao Brasil. “A Alemanha deve parar sua cooperação com o Brasil – imediatamente”, afirma, em nota enviada à DW Brasil.

O conservador liberal FDP é a quarta maior força do Parlamento alemão e já participou de diversas coalizões de governo da Alemanha nas últimas décadas. O partido de centro-direita também é um forte defensor do livre-comércio e da não-intervenção do Estado na economia e nos costumes.




“A humanidade não pode mais arcar com a destruição total da Floresta Amazônica e o desrespeito aos direitos dos povos indígenas, em face da catástrofe climática”, argumenta. “A UE precisa definir o caminho de barreiras à importação de produtos agrícolas, como soja e carne bovina, que são produzidos através da destruição da floresta tropical.”

“Há mais de 50 anos, a cooperação alemã para o desenvolvimento tenta impedir o desmatamento da Amazônia, transferindo mais de 600 milhões de euros. Em vista da dramática destruição da floresta no Brasil, isso é um desperdício de dinheiro de impostos”, complementa o parlamentar.

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul é motivo de críticas também entre os outras legendas da oposição alemã. O partido A Esquerda pede que o tratado seja recusado por causa, entre outras coisas, da política ambiental e agrícola do governo Bolsonaro.

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Já a Alternativa pela Alemanha (AfD), de extrema direita e maior partido de oposição no Bundestag, defende há semanas a rejeição ao pacto entre os blocos europeu e sul-americano. O argumento usado pela legenda nacionalista, entretanto, é a proteção aos interesses dos agricultores alemães.

Governo Merkel não endossa rompimento

Mais comedido, o ministro do Desenvolvimento Internacional, Gerd Müller, que é filiado à CSU, o braço bávaro do partido da chanceler Merkel, advertiu na sexta-feira sobre reações precipitadas da Alemanha em relação ao Brasil. “Nós não vamos salvar a floresta se queimarmos as pontes com o Brasil e desistirmos do Fundo Amazônia”, disse, em referência ao fundo de proteção da floresta que conta com verbas da Alemanha. “Ir embora não ajuda ninguém, nem os povos indígenas, nem a floresta, nem a defesa climática.”




Um porta-voz da chancelaria também expressou a posição mais comedida do governo Merkel, afirmando que engavetar o acordo com o Mercosul “não é a resposta adequada”.
“Falhar em concluir o acordo com o Mercosul não vai contribuir para reduzir a destruição da floresta no Brasil”, disse o porta-voz. “A magnitude do fogo é alarmante e estamos prontos em ajudar o Brasil a superar essa crise séria”, completou.