em Geopolítica

Exclusivo: Entrevista com Sheik xiita sobre a atual situação do Irã

Por Igor Santos *

Começava a manhã sexta-feira e o jornalista que aqui escreve, recebe a ligação de uma figura inusitada, Rodrigo Jalloul, um jovem de 33 anos, filho de libaneses e espanhóis, cuja família em sua ascendência árabe e muçulmana, é adepta do islamismo sunita. Sheik Rodrigo Jalloul, começou seu caminho religioso no xiismo aos 16 anos. Um homem de semblante muito calmo e voz pacífica que aos 19 anos ingressou no seminário de Qom no Irã para se formar em teologia islâmica, aos 27 anos foi ordenado Sheik, o primeiro brasileiro a ser ordenado sacerdote desse ramo do islamismo. A entrevista de hoje é com esse jovem clérigo.




A idéia é que essa entrevista fosse gravada em um ao vivo do Facebook ou Youtube, contudo, tais redes sociais e veículos de comunicação tem tirado conteúdo ligado a narrativa a partir de xiitas e iranianos sobre o atentado a mando de Donald Trump e que resultou na morte do General Qassem Soleiman. Esse registro é tanto um exercício de jornalismo como um aceno de resistência contra a censura imperialista dos EUA.

Igor Santos: Sheik Rodrigo, nos conte um pouco da sua vida até se tornar clérigo islâmico e como foi o processo para se tornar sacerdote, o senhor é o primeiro sacerdote xiita brasileiro, correto?




Sheik Rodrigo:Sou filho de libaneses com espanhol, batizado na igreja católica, cresci no circo junto a meus avós maternos, logo passei a trabalhar com minha família libanesa na rua santa Ifigênia no centro de São Paulo. Por volta dos 16 anos comecei a seguir o islam como religião, sou xiita por opção, pois minha família é sunita. Aos 19 anos fui estudar no Irã, na cidade de Qom. Aos 27 anos fui ordenado como líder religioso do islam (sheik) pelo seminário teológico de Qom na universidade Imam Khomeini, uma das mais importantes do país. Sou o primeiro brasileiro a ocupar esta posição tão importante no islamismo.

Igor Santos: Sabemos que o islamismo se divide em alguns segmentos/tradições, as duas principais são o sunismo e o xiismo, poderia nos falar um pouco sobre cada uma, as origens, diferenças e semelhanças?

Sheik Rodrigo: Em verdade o islam é um só, mas a divisão apareceu após o falecimento do profeta Mohammad ou Maomé, as pessoas que seguiram o islam através da liderança do companheiro do Profeta chamado Abu Baker se denominam sunitas, os que seguiram a família do profeta pela pessoa de Ali ibn Abi Talib são os xiitas.
Os sunitas tiveram como critérios de escolha de seu líder, a escolhida pelas pessoas influentes da época. Os xiitas já acreditam que a continuidade da mensagem divina está com os discípulos que foram escolhidos por Deus e anunciados ao profeta. Ao total são 12 discípulos, começando por Ali até o décimo segundo denominado Mahdi que em nossa crença está vivo e volta no fim dos tempos junto com o profeta Jesus.
Sunitas e Xiitas acreditam no Deus único, no profeta Mohammad, no alcorão, em mecca como direção, no jejum do mês do ramadã, as orações diárias e vida em comunidade. Enfim como dizia o Imam Khomeini: ‘‘99% de semelhança e 1% de diferença.

Igor Santos: O Irã desde o final dos anos 70 tem se tornado uma potência regional no oriente médio, a partir de uma postura, anti-hegemônica, muito disso se deve a revolução iraniana de 1979. De lá para cá os principais meios de comunicação ocidentais vem construindo uma narrativa que coloca o Irã como vilão, uma teocracia atrasada e sinônimo de autoritarismo. O que o senhor tem a dizer sobre isso? É verdade que no parlamento iraniano existem representantes zoroastristas, cristãos e judeus?

Sheik Rodrigo: Posso afirmar que mesmo com problemas assim como todos os países possuem, o Irã ainda tem a melhor qualidade de vida do oriente médio, um país seguro, de ruas limpas, pessoas amáveis, ao contrário que muitos pensam, a República Iraniana investe pesado em educação. As mulheres por exemplo, tem seus direitos assegurados e trabalham e estudam normalmente. Mais de 60% dos universitários do país são mulheres, temos também uma boa porcentagem de irmãs e irmãos muçulmanos de outros lugares do mundo que vão para lá estudar. São detalhes que levariam uma longa conversa para contar, só quem teve o privilégio de estar no país para entender o que quero dizer. Não é conveniente para a mídia mostrar um país que apesar dos embargos e guerras impostas a ele tenha dado certo a partir do esforço de seu próprio povo e sem explorar outras nações, não é conveniente para o sistema falido capitalista e ocidental, ver que uma país que chamam de atrasado tem se levantado por si mesmo. No parlamento existem representantes sunitas, judeus, zoroastras, cristãos representando e defendendo seus interesses também. Além de ter escolas públicas judaicas, cristãs e sunitas separadas por mais que seja uma república islâmica xiita, não é imposto aos sunitas que se tornem xiitas.

Igor Santos: Quem foi o General Soleimani e qual a importância dele no combate ao ISIS no Iraque e Síria?

Sheik Rodrigo: O General Soleimani não foi somente um militar iraniano, foi um homem que lutou pela paz no mundo e entre seus irmãos.
No Oriente Médio sabemos que quem criou o estado islâmico foram os próprios estadunidenses, quem lhes forneceu armamento e treinamento também. E com o monstro criado, ‘‘os americanos vieram para salvar a humanidade daquele mal’’.
Mesmo com as diferenças, o general teve discernimento para saber como lidar com tropas americanas no Iraque e Síria e focar no objetivo comum que era exterminar o ISIS..
Ele foi o homem que combateu realmente o estado islâmico e colocava ordem e equilíbrio nestes países ajudo-os a serem livres de forças estrangeiras. Claro que uma pessoa inteligente e corajoso como ele não era interessante aos estadunidenses vivo na região. Temos ele como mártir e herói iraniano.

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Igor Santos: Desde o atentado terrorista ao General Soleimani, temos notado um movimento muito estranho no Youtube e Facebook, diversas paginas de noticias ou opinião que optaram por ouvir a narrativa pró Irã ou saíram do ar ou tiveram seus materiais desvinculados da rede. Essa entrevista inclusive seria em um vídeo ao vivo e que não conseguimos. Qual sua avaliação da cobertura midiática acerca do assunto?

Sheik Rodrigo: Não foram somente estes veículos submissos aos EUA, canais de tv iranianos transmitidos via satélite foram bloqueados assim como muitos sites. O país que mais fala de liberdade de expressão e direitos, dá essa tal liberdade as pessoas dentro de um parênteses bem obscuros para se expressarem, com a condição que não se voltem contra o sistema. Enquanto isso a mídia mundial dominada por estadunidenses e a máquina sionista controla o que deve ser visto e ponto de fazerem a cabeça das pessoas que isso tudo que acontece é uma luta do bem contra o mal. E claro eles representam o bem, eles (estadunidenses) que invadem países, que atiram bomba nuclear, que não respeitam os direitos humanos, que oprimem países mais fracos, que matam por seus interesses próprios, que controlam o direito de expressão, que são preconceituosos com povos e culturas e que enfim estão em outro continente para pregar a suposta paz como desculpa para matar nossos filhos e esposas.
Dentre as emissoras manipuladoras que observo nos dias de hoje está a Tv Record da igreja universal que descaradamente joga notícias falsas para proteger as atrocidades dos EUA e a ignorância do governo Bolsonaro.

Igor Santos: Como o senhor tem sentido a comunidade iraniana e xiita no Brasil sobre o assunto?

Sheik Rodrigo: Todos estão sentidos com a perda do general e sinto bastante preocupação por todos viverem no Brasil pois temos Trump de um lado, maluco, descontrolado e opressor e de outro Bolsonaro que vive em função dos estadunidenses e Israel. Tendo em vista os muçulmanos e árabes como inimigos e governando somente para os interesses estrangeiros esquecendo do povo brasileiro, além de não medir as consequências de suas palavras.

Igor Santos: O senhor gostaria de deixar um recado para nossos leitores?




Sheik Rodrigo: Que não se deixem levar pela ignorância, pesquisem, estudem, perguntem os porquês das coisas, não se deixem levar pela mídia pois ela está infectada e manipulada. Não julgue pelo que está vendo na televisão pois não se tem mostrado as duas caras da moeda.
Que não pensem que um Brasil nas mãos dos imperialistas dos EUA vai melhorar, não houve país no mundo em que os EUA colocaram as mãos e conseguiram progresso.
No oriente médio os EUA sempre saíram com as mãos manchadas de sangue por onde passaram.
Nosso país tem clima e todos os meios para investirmos na indústria nacional, temos que produzir de tudo um pouco para buscar a verdadeira independência. Para que nosso dinheiro não dependa do dinheiro de outros países, para que aumente o número de empregos, diminua a miséria e possamos ter o real crescimento que nossa terra nos oferece. Enquanto nossos governantes estiverem atentos aos interesses estadunidenses e israelenses, ou seja de quem for e esquecerem dos interesses reais nacionais nosso país não terá o verdadeiro conceito do progresso, temos tudo e ao mesmo tempo carecemos de tudo e de todos mundo afora!

 

  • Igor Santos é jornalista , historiador, cearense e morador do ABC Paulista.

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